(sem título)


Segunda-feira, Maio 26, 2008
Alvorada

Encontre-me de manhã a teu lado
  e ria pra mim: 'bom dia, anjo!
  tens sonhos intranqüilos tão livres de paz
  quanto meu coração, se longe de ti.'

'Tenho sonhos intranqüilos no coração
  que teme alucinar fantasias distantes
  de ti, que agora me acorda fiel,
  de nós e o que tornámo-nos juntos'

'Querubim, anjo, arcanjo e deus meu!
  que fiz pra merecer tantas juras
  inda havendo tantas, vezes justas,
  a querer de ti tão torpe devoção?'

'Como perguntas, se é que perguntas?!
  não há mistério, segredo, resposta.
  nem há outra, justa ou impura;
  há apenas nossa alvorada conjunta.'


Quinta-feira, Abril 10, 2008
  Quem foram estes cujos espíritos se
desvaneceram sem que eu pudesse lhes beijar
a fronte uma última vez e dizer ter-lhes amado?
  Que rostos são esses em imagens que
invadem minha mente quando tento entender
o que se passou nos anos que nos afastaram?
 Foram meus e fui deles, tantas vezes e,
por deus!, com tantas juras a isso!
  Que gente fomos nós que mentimos
para nos ter e depois nem confessamos
para não nos perdermos?
  Não há quem culpar senão a cada e a
todos, nem a quem lamentar pois só dentro
de cada reside a dor da perda do outro.


Quarta-feira, Março 26, 2008
Tens tu algum valor quando insistes
em tomar por tuas as idéias d'outrém?
Não há dignidade em repetir e aplaudir -
não sem antes questionar-se e fazer argumentar

Em cada palavra, parágrafo e discurso
dos que se elegeram ou foram eleitos
Mestres pode haver falha, senão mentira,
a ser apontada por seus ouvintes

O discípulo segue - ouve com afinco e repete
mas o aprendiz relê e produz além
'Não teria neste argumento um ponto ou mais
que possa ser deferido ou, ao menos, complementado?'
Não se iluda com cada palavra que vos chega
pois pra cada verdade podem haver outras
Para cada problema pode haver um dilema;
duas respostas, duas coerências, muitos caminhos.


Sexta-feira, Março 21, 2008
um caso, não um namoro, não um compromisso
nada de rúbrica, de anel ou promessa
sem grinalda nem terno, nem bodas
  testemunhas, padrinho ou madrinha

um caso, não mais, sem enlace
sequer acordo, apenas é.
nenhuma jura conjunta, nem votos
  repetidos, ensaiados, sacramentados

mas um caso que me toma
  tempo, amor, devoção; beijos
  abraços, encontros, anseios

e se perguntassem que é isso
  e o que há de ser disso
  entôo, orgulhoso: eu caso!


Quinta-feira, Março 13, 2008
Busco inspiração no Inferno que a cidade me inspira
busco em lugares errados o caminho para longe

Porquê não correr?
Que me prende? Amores?
Se foram!
Rancores?
que se fodam!

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Há n'algum lugar a ilusão de me esquecer
e o que se foi

mas parte de mim teme
esquecer o que foi
(ou quem foi...)

Não fugir seria jogar-se ao confronto
Seja com o passado que enterrou-se em flores (essas, belas; essas, perfumadas; essas que depois de breves olhadas
morrem! e viram nada)

Seja o presente, este inimigo que tapeia-me face e alma
Escarra meu desgosto por mim nos outros que estão dentro de mim


Quarta-feira, Novembro 28, 2007
Ela joga seu corpo com força contra o meu
Sua perna prende a minha contra si
beija vorazmente, vampírica, meu pescoço
seria a cocaína que a move, a torna?

Ela tem ânsia em seus olhos
fome de carne nos lábios sorridentes
sua mão fecha em meu dorso, prende
com unhas cravadas à pele

me permito, dou; deixo pertencer e usar!
estou dentro dela e me movo
à medida que ela gira, contorna
domina o ato em risadas e força

há escárnio, contente escárnio
em me ter sob si e em si
e há gozo que compartilhamos
embora eu esteja aqui, e ela ali

me deixo, me entrego
ela fez-me seu
e goza seu poder
altiva enquanto caminha
pra fora do quarto.


Terça-feira, Julho 03, 2007
dos vícios inerentes ao homem
- dentre tais o jogo e o etil -
é do coração o mais inebriante
seja paixão fortuita ou pago vil

nele me enredo, me enrosco
num salto, de olhos fechados
nos teus olhares embriagados
deixo-me guiar e me embosco

que te pertencer, por ti cair
é honraria por qual anseio
rege-me e guarda em teu esteio
sem tua ordem não hei de sair

soaram sinos na noite em que me beijaste
saltei mundos sem um só movimento
mas os de nossas bocas e almas
umas contra as outras,
uma dentro da outra



Segunda-feira, Março 12, 2007
não mereço nem um sopro de vento carregando teu cuspe a mim
- sonhar com teu escarro sobre minha face seria ambiocioso demais
se sonhar com teu desprezo e ousar lembrar, estarei construído um altar
sobre o qual eu posso me arrastar
e esse arraste em tua direção
é mais do que merece meu corpo transitar

não devo ousar ter de ti os restos de escárnio, vociferação
- o ecoar de teus gritos, ao meu ouvido, outr'ambição
mereço apenas o não merecimento
o nem descontentamento
pois existir lembrando que mereço teu desprezo
é existir em exagero



Quinta-feira, Fevereiro 15, 2007
sonhei contigo esta noite
despia-se da camisola branca
para enfiar-se no vestido preto, frente ao espelho
os cabelos lisos penteados para trás e para os lados
o salto discreto, pele macia destacada entre este
e o vestido
mas eu não estava lá

em um táxi chegava ao baile à noite
no balcão à esquerda, uísque e gin
dançava entre amigas e casais desconhecidos
canções às quais dificilmente dava atenção
interrompida pelo beijo de um estranho
a quem permitiu tocar-te
e eu não estava lá

sonhei contigo esta noite
chegavas em casa cansada
despia-se de costas ao espelho para voltar à camisola
e deitada na cama ignorava lembranças da noite
apenas chorava, com o rosto apoiado nas mãos
cerrado em lágrimas
porque eu não estava lá.



se eu acordasse todo dia e visse esse rosto no espelho, seria feliz
se me chamassem, assim de longe
e eu percebesse que fosse comigo
eu sorriria feliz por terem lembrado de mim
e se eu tivesse o prazer de dar a alegria que as pessoas sentem ao te ver
me sentiria bem-quista onde quer que fosse
se pudesse ser quem não se pode ter porque ninguém pode ter a quem a todos tem
eu ficaria feliz por tornar ao bem aqueles quem me querem bem